Esta é a primeira entrevista que é feita desde o novo visual da Enektor.
Contactamos o Paulo Sales pela sua vasta experiência no ramo da arte, relacionado especialmente ao Design Gráfico. Pela sua visão e coerência abdicamos de qualquer outro artista, tirando assim partido dos seus ensinamentos que partilhamos abaixo consigo.
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“Posso dizer também que trabalho com o Photoshop desde a versão 3 e estou sempre, mas sempre a aprender algo de novo, seja um shortcut, uma técnica…“
Agradecemos desde já ao Paulo pela colaboração. É com muito gosto que partilhamos consigo a nossa humilde casa. Faça-nos um breve apanhado de como nasceu o “Mr. Photoshop”.
Olá, e obrigado pelo vosso convite.
É uma satisfação saber que espaços como este dão vida a novos talentos, e propagam a veia da criatividade.
Essa curiosa denominação foi uma brincadeira do Luís Serra Santos, que aceitei de bom grado, pela amizade que nos une e também por saber que o Luís exagera por simpatia, em relação aos amigos que tem no meio profissional, neste caso a minha pessoa.
É um facto que me dediquei exclusivamente ao Photoshop nos últimos anos, não só em termos de conhecimentos adquiridos, mas também a nível profissional.
No entanto ainda tenho um longo caminho pela frente, para conseguir chegar onde pretendo, e estou sempre a aprender.
O Photoshop é parte essencial da minha existência diária, mas sempre estive de algum modo ligado a imagem e artes.
A minha base de experiência como alguém que divulga conhecimentos, começou quando era bastante novo a dar explicações de matemática e geometria descritiva, tendo continuidade no ensino secundário onde fui professor de desenho e geometria descritiva.
Sempre gostei do conceito de partilha de conhecimento.
Um dos meus sonhos é fazer algo semelhante ao Ben Willmore, um instructor on the road…
Como é o Paulo por de trás do écran?
Sou uma pessoa algo reservada, se calhar algo sisudo ou aéreo, para quem não me conhece, mas como se costuma dizer, sempre boa onda….faço por isso! Gosto imenso de Ler e Desenhar , de ver alguns filmes, mas grande parte da minha existência é passada precisamente no computador (Internet e Photoshop) Adoro Cinema Soviético, BD (Hugo Pratt e Enki Bilal), e alguns géneros literários (Phllip.K.Dick, Úrsula.L. Guin, Jack Kerouac, Terence Mckenna,Eugénio de Andrade, Renata Pereira, etc…)
O que me fascina mais é sem dúvida esquiçar e desenhar, e também criar algumas ambiências no Photoshop, muito embora e com alguma pena minha, não tenha a disponibilidade necessária para poder estar durante algumas horas seguidas dedicado por inteiro a algo essencialmente meu.
Devido às minhas actividades profissionais, estou muito tempo na Internet, não só a consultar e a estudar, mas também a gerir a minha biblioteca de links (agora faço do Facebook a minha bookmarcklândia) E o Photoshop… que me acompanha diariamente no Museu da Cidade, e também na elaboração das formações, dos Workshops, dos tutoriais…
“Ter uma identidade visual também é importante, mas isso é algo de extraordinário e complexo de alcançar.”
Na sua carreira profissional, qual terá sido o seu ponto alto?
O ponto mais alto é sem dúvida o ano corrente, pois tive imensas solicitações a todos os níveis e em todos os segmentos profissionais em que estou inserido, não em termos monetários, mas pelo imenso prazer que tive em vários momentos.
Partilhar conhecimento e adquiri-lo é uma alegria.
O que prova (pelo menos a mim próprio) que a idade não conta, quando queremos ir em frente com os nossos objectivos.
Conheci imensos profissionais da área, e até fiz amizades com alguns, aprendi imenso, participei em alguns eventos, etc, etc.
Desde Formações e Workshops, passando pela edição total de conteúdos de uma revista, até ao meu trabalho diário no Museu da Cidade de Lisboa, posso afirmar que embora tenha sido muito cansativo, pois não tive muito tempo para descansar, valeu o esforço e a paixão dispendida.
Quando vemos ou sentimos que o nosso trabalho nos motiva, e nos leva a encará-lo como um prazer, então tudo parece fazer sentido, até o facto de dormirmos 2 ou 3 horas por dia, sendo quase sempre recompensado com simpatia e disponibilidade.
Tem alguma referência que o tenha influenciado ao longo destes anos?
Tenho referências que de algum modo me ajudaram a educar o meu gosto.
Posso dizer que Tarkovky, Sokurov, Fellini, Bilal, Strugatsky brothers, Morphosis, Frank Lloyd Wright, El Lissitsky, Chernikov, Rodchenko, Corto Maltese, Cosey, K.Dick e Kerouac, citando alguns, foram decisivos numa espécie de purga intelectual.
Volto a referir que adoro desenhar, e aqui talvez sejam sentidas algumas influências, não só de Hermann, como também de Bilal, salvo as devidas comparações, claro…
Ao nível de arte digital, sou um barroco por assim dizer…
Muito embora seja um adepto da estética do modernismo e do construtivismo russo, e do lema Less is More, isto é algo que eu não consigo de todo fazer nos meus trabalhos.
Tive bastante formação académica em Arquitectura (não cheguei a terminar), e de algum modo como autodidacta em Imagem, mas esta espinha está-me atravessada, e nunca estou satisfeito com o resultado final do que faço, não por ser um perfeccionista, mas por saber que poderia sempre fazer diferente.
Quais são as ferramentas essenciais para um artista gráfico?
Ler a realidade, pensar o sentir, e trabalhar o gosto, fantasiando…
E praticar, com vontade e alma, não basta ter talento ou nascer com mais capacidades se não as aproveitamos para divulgar ainda que seja para nós mesmos.
A luz e a cor são elementos decisivos, e a sua compreensão não só em termos sensoriais mas também a ciência que contêm, é fundamental.
Ter uma identidade visual também é importante, mas isso é algo de extraordinário e complexo de alcançar.
Ao longo de tantos anos de experiência, vê-se realizado profissionalmente? Isto é, há algo que o Paulo ainda ambicione atingir, ou hoje sente-se perfeitamente integrado nos seus projectos de á 20 anos atrás?
Não estou satisfeito, pois tenho consciência que poderei dar mais de mim próprio, para minha satisfação pessoal em várias áreas que adoro.
Presentemente quero estudar bastante para ver se consigo o Adobe Certified Expert em Photoshop, os exames são de uma exigência enorme e muito traiçoeiros.
E tenho imensas ideias por concretizar ou por realizar, algumas delas talvez este ano que vem possa começar ou recomeçar.
Vejo sempre luz, ou algo que me encaminha felizmente, em suma sou um sonhador optimista.

O Paulo trabalha como formador na Animotic. Como é que desenvolve um sujeito que nada ou quase nada sabe, e preparando-o para a industria em apenas 195 horas, atendendo ao curso com maior carga horária?
Também na Animotic, com muito gosto…
A Animotic prima por um aspecto que considero muito interessante, que é a relação instrutor-aluno.
O Curso de Photoshop está estruturado de modo a que o aluno compreenda a essência e a ciência que está por trás do Photoshop, com bastantes exemplos e alguma pratica e criatividade.
Só assim poderá compreender melhor, porque se opera deste ou daquele modo.
O curso é dado pelo Luís Serra Santos e por mim especificamente em áreas mais complexas e recentes.
Ninguém poderá ficar apto totalmente se não desenvolver um percurso também pessoal de continuidade e de prática, mas pela experiência que tenho tido, as aulas são bastante divertidas e os alunos ficam na maioria bastante satisfeitos com a evolução conseguida.
Posso dizer também que trabalho com o Photoshop desde a versão 3 e estou sempre, mas sempre a aprender algo de novo, seja um shortcut, uma técnica…
Adoro dar aulas, é extremamente motivante e divertido para mim, espero que os alunos partilhem da mesma opinião.
Em termos de habilitações, cada vez mais encontramos artistas sem qualquer formação ou por concluir, com grande participação na industria. Como formador, como vê isso?
O grande problema é que as faculdades não preparam para a prática e enquanto um estudante dedica basicamente 5 anos a conceitos, um autodidacta pratica e estuda atingindo de maneira mais objectiva a sua entrada na indústria.
Claro que a formação académica dá um background cultural e uma outra envergadura, mas depois temos os estágios, enfim…
Mas vivemos tempos complexos também, o desemprego é assustador, as pessoas sobrevivem globalmente, e na generalidade o que conta é que se possa ter meios para subsistir.
Assim, as empresas aproveitam e é mais fácil contratar o craque freelancer de Maya, por menos dinheiro que um recém-licenciado que não tem o know-how do software, porque na faculdade lhe deram somente em 2 meses noções de 3D, como também não teve tempos para se dedicar intensamente.
É um ciclo…mas acredito que as faculdades vão mudar isto, na génese de alguns programas de cursos, mas também com cursos mais virados para a indústria, o que já se começa a ver em alguns locais.
Até dentro das próprias agências e empresas, tudo se passa de modo muito fluído e com pouca honestidade intelectual em relação a quem trabalha.
O maior problema do nosso Portugal, é quem tem poder de decisão ser pouco esclarecido em objectivos a longo prazo ou em relação a projectos inovadores.
O lucro imediato sempre foi e será uma das características portuguesas dominantes, bem como a vaidade pessoal, e por mais tecnologia e aposta que se façam, somos territorialmente pequenos, e isso tem sempre muito peso.
Que análise faz á arte nacional? O que falta?
Falando do segmento relacionado com Arte Digital, vive-se ainda num limbo, existindo imensos talentos e pessoas com capacidades extraordinárias, que estão isoladas, não se mostram e pouco arriscam.
Conheço também artistas fantásticos portugueses, mundialmente reconhecidos pelas suas criações e participações em grandes eventos.
Falta uma aposta séria nestes meios, existe já imensa divulgação, eventos, e exposição, mas a Arte Digital ainda é vista como um parente pobre das Belas Artes.
Não basta por os alunos a mexer em Illustrator, Indesign e Photoshop, há que relacionar e correlacionar temáticas, conteúdos e programas de curso direccionados para a indústria e mercado de trabalho.
E apostar num mercado de trabalho honesto e numa interacção que é possível entre as escolas e agências/indústria.
Claro que dá trabalho, mas o que não dá trabalho, não tem qualidade na generalidade.
“(…) a ideia peregrina genial, só é genial se funcionar, se tiver receptividade e for entendida.”
Como é que alguém sem qualquer trabalho profissional entra na indústria? O João Oliveira (aka Biomachina), apareceu após o 1 lugar no concurso da HP e MTV “Take Action, Make Art”. Acha que são projectos do género que lançam os artistas?
Mas é isso mesmo que os artistas nacionais devem fazer…promoção, e sem medos!
Como referi anteriormente não somos diferentes de outros artistas internacionais.
O que se passa é que Portugal é essencialmente Lisboa e Porto, e isso é perfeitamente visível em termos culturais e artísticos.
Promovam-se, vão á luta, mostrem-se…participem, opinem, partilhem…
Num documentário feito por Nuno Filipe Miranda “The Expressive Power Of Young Portuguese Design”, o Paulo Arraiano referiu que o design não é só fazer bonequinhos. É preciso uma lógica e um conceito. Acha que actualmente se faz demasiados “bonequinhos” visualmente agradáveis, mas que se esquece de tudo o que está por de tras, como o tal conceito?
Concordo em absoluto!
Tudo o que é consistente tem por base um conceito, a ideia peregrina genial, só é genial se funcionar, se tiver receptividade e for entendida.
Mas também temos que pensar que a imagem, como imagem por si pode ter um peso fortíssimo.
Um observador comum que pense, no que lhe é dado nota e distingue a qualidade.
É uma temática duma complexidade imensa, mas julgo que a situação está a melhorar gradualmente, não só e relação a quem desenvolve conceitos, como em relação aos alvos desses conceitos.
Considero que estas situações são o resultado da excessiva informação disponível e imediata, sendo pouco pensados os critérios ou as ideias.
Todos os artistas acabam por sentir dificuldade na tão falada relação “cliente/criador”.Como acha ser a melhor forma de satisfazer o cliente sem que isso impeça o artista de desenvolver as suas técnicas e impor a sua arte?
Julgo que tudo passa por honestidade intelectual, de ambas as partes.
É claro que ambos têm que ser diplomatas, para se manter um equilíbrio no diálogo, mas existem sempre imensos factores de desequilíbrio.
Prazos e decisões sem retorno, têm que ser cumpridos.
O diálogo e frontalidade são a melhor ferramenta para um artista conseguir a sua liberdade criativa.
A Arte vende-se, a alma não…
O que pensa sobre projectos como o Enektor?
Sinceramente fiquei agradavelmente surpreendido com a nova cara do Enektor. Um portal de Arte Digital, que pode crescer imenso… Já conhecia o vosso espaço anteriormente. Este tipo de locais são uma enorme mais valia para a troca de conhecimentos, opiniões, críticas e divulgação. Perdoem-me a referência, mas lembro-me do CGArtdomain com uma vida própria e uma enorme e fiel base de utilizadores. Fizeram-se coisas muito interessantes! Há que também da vossa parte tentar estabelecer mais parcerias com nomes credenciados, para se exporem ainda mais, e aos artistas residentes.
Bem, é tudo. Quer acrescentar algo antes de darmos como terminada a conversa?
Deixo-vos como conselho final se me permitem (parece que ter 44 anos pode servir para algo…), aquilo que digo para mim próprio. Acreditem que com muito trabalho e dedicação, não há impossíveis. Tracem o vosso rumo!
Obrigado pela entrevista e grato pela vossa atenção.
Paulo Sales
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Quero agradecer-lhe mais uma vez o tempo que partilhou connosco (que sabemos que lhe é precioso). O seu contributo á comunidade será certamente muito útil ao nosso desenvolvimento futuro. Convido-o também a dar um passeio pelas nossas secções de exibição. Esperamos voltar a ouvir falar em si ti em breve.
Para quem quiser saber mais sobre o Paulo, deixo os seguintes links:
http://twitter.com/paulosales
http://www.facebook.com/paulo.sales
http://metacool.deviantart.com – (embora bastante desactualizado)
publicado por oyphis







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